e porque isso importa
Quando a amnésia histórica vira política de Estado, o passado não some — ele se fantasia de novidade. Uma leitura do presente a partir de Millôr Fernandes.
Como o humor virou trincheira contra a ditadura — e o que isso revela sobre o Brasil de hoje.
Revisitando o movimento que o mercado transformou em produto e a academia em fetiche.
Uma rereading do Brás Cubas como diagnóstico atemporal da elite brasileira e seus disfarces.
Quando a amnésia histórica vira política de Estado, o passado não some — ele se fantasia de novidade.
Millôr Fernandes costumava dizer que o Brasil não tem memória — tem apenas cicatrizes que insiste em chamar de identidade. A frase nunca foi exatamente sua, mas ele a diria assim mesmo, com aquela precisão irônica que confundia o leitor a ponto de fazê-lo rir antes de entender que devia chorar.
O problema não é a falta de historiadores. O Brasil tem historiadores excelentes, uma produção acadêmica densa, arquivos razoavelmente preservados. O problema é que a história produzida raramente cruza o muro da universidade para chegar à praça, ao bar, ao podcast, ao grupo de família no Zap.
Há uma diferença fundamental entre esquecer por acidente e esquecer por conveniência. O Brasil moderno — aquele que se constitui como república, atravessa ditaduras, redemocratiza e volta a tremer — opera sistematicamente pela segunda modalidade.
Getúlio virou mito. A ditadura virou "regime militar" em alguns livros didáticos e "revolução" em outros. A escravidão virou dado do passado em vez de estrutura do presente. Cada ressignificação não é erro — é escolha. E escolhas têm autores, têm financiadores, têm beneficiários.
O que Millôr entendia — e que O Pasquim praticou com genialidade — é que a melhor resposta ao esquecimento fabricado não é o panfleto. É a ironia. É fazer o leitor rir de si mesmo até perceber que a piada é séria, que o riso é político, que a cultura é o campo onde a memória sobrevive quando tudo mais é destruído.
A Reunião de Cultura é uma plataforma editorial baseada no Rio de Janeiro dedicada ao pensamento crítico sobre o Brasil — sua história, sua cultura e suas contradições. Inspirada no espírito d'O Pasquim e de Millôr Fernandes, acredita que entender o passado é o único caminho para decifrar o presente.